domingo, 13 de junho de 2010

O ritmo da chuva

A garoa fina embaçava a lente dos óculos de grau. Trajava uma calça jeans surrada e uma blusa de moletom, protegendo-a contra o frio. Estava cansada de andar, fazia em torno de 4hrs que vagava sem rumo. Sentou-se na sarjeta, cuja mesma estava um tanto imunda e molhada; mas não se importou, estava quase no mesmo estado. Ao observar os carros passando lento pelas ruas, perdia-se em um de seus devaneios. Foi quando ouviu passos em sua direção, que ficavam cada vez mais próximos. Olhou para cima e avistou um rapaz; ele segurava um guarda-chuva, vestia uma jaqueta preta de couro e calças jeans um tanto úmidas. Me fitou por alguns instantes e logo quebrou o silêncio que pairava entre os dois.
- O que leva uma moça como você ficar sentada aí?
- Assim como? - Perguntou.
- Ahm. - Suspirou e colocou a mão que estava desocupada em um dos bolsos de seu jeans. - Bonita. - Tal palavra foi dita rapidamente, o que deu a impressão do mesmo estar com vergonha. Sem perder tempo, ele sentou-se ao lado dela.
- O que leva um rapaz como você sentar ao meu lado?
- Curiosidade sobre a moça bonita sentada na sargeta.
- Não falo da minha vida para estranhos. - Seu tom não foi rude, foi apenas sincero.
- Tudo bem, fico aqui só lhe fazendo companhia.
- Você já teve vontade de desistir?
- Do que? -Ele retirou a mão do bolso e na outra ainda segurava o guarda-chuva.
- De tudo, da vida.
- Todo mundo já teve essa vontade um dia.
- Eu me sinto tão sem saída.
- Sempre existe uma saída. Esse é o maior clichê do mundo não é? Mas é verdade.
- Eu sei que existe. Eu teria me afastar de várias pessoas que me fazem mal, mas eu tenho medo de ficar sozinha.
- Bom, prazer, você acabou de conhecer Mrs. Woody Allen Junior. Não ficará sozinha. - Descontraidamente, ele riu para a moça. E ela retribuiu-lhe o sorriso.
- Noite passada sonhei que conhecia um rapaz, mas não via o rosto dele.- Pode ter sido uma premonição.
- Ah claro, sei.- Revirou os olhos e fitou novamente os automóveis que vagavam pela rua.
- Olha, é sério. Sabe aquela história de cortar o mau pela raiz? É como nascer de novo. E se sua vida não está bacana, nasça de novo. Desfaça os nós.
- É, talvez. Então vamos começar de novo. Então Mrs. Allen, pode-me revelar sua identidade secreta?
- Gabriel... E você, moça da sargeta, que saíra da sargeta em breve?
- Clarisse. - Abraçou os joelhos que estavam dobrados. Aparentemente estava começando a sentir mais frio. Ele observou-a, pigarreou e fez um convite.
- Para começar bem, topa ir comigo ao café da rua 13 tomar chocolate quente?
Ela sorriu, e ambos levantaram-se a caminho da rua 13. Porque começar é difícil, mas quando envolvemos coisas que nos agradam, sempre fica mais fácil.

4 comentários:

  1. Todo dia pode ser um recomeço, nunca sabemos o que vamos encontrar na esquina, lindo texto :*

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  2. Começar de novo nunca é fácil. Os seres humanos são apegados ao passado por natureza. É cômodo.

    Mas a jornada é sempre mais agradável em boa companhia... =)

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  3. Eu preciso recomeçar, e seu post é inspirador.
    Bom seria recomeçar com uma companhia dessa :D

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  4. Relamente recomeçar é muito difícil, mas se não tentarmos não iremos saber. ótimo texto ;*

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