quarta-feira, 5 de maio de 2010

O antídoto do veneno é o próprio veneno

Não sei porquê ele me pedia pra cozinhar. Sempre fui péssima nisso. As panelas não são muito sociáveis, sempre caem da minha mão, ou eu esqueço-as no fogo; volto pra minha bolha e quando desperto do último devaneio a casa esta repleta de fumaça e eu só falto chamar os bombeiros.
Mas aquele momento não estava ruim, meu único trabalho era enfeitar a pizza (chamam isso de rechear, mas para mim recheio é dentro, o que fica em cima é cobertura). Ilustrei um rosto feliz, sou uma pessoa muuuito simpática, vocês não imaginam. Ele fez um sol com o milho. Eu fiz um círculo, círculos explicam diversas situações cotidianas. Aí ele fez um coração.
- Seu coração é defeituoso. - indaguei.
- Idaí? - ele me respondeu sério - coração mesmo, o órgão, não tem forma certa.
- Prefiro pensar que ele é igual todo mundo ilustra.
- Ignora a realidade.
- Deixa de besteira, isso importa? - Fui um tanto seca, tocar naquele assunto me incomodou.
- Importa. Quantas coisas na vida parece de um jeito e na verdade é de outro? Ou quantas fingimos não ver?
- Hum... Muitas. - Não queria prolongar tal assunto, eu sabia que uma hora ou outra ele tocaria em alguma ferida antiga.
- O amor. Se a gente ama mesmo uma pessoa, por mais que esfreguem na nossa cara que essa pessoa não presta, nós nos vendamos e levamos em frente. Por que amor a gente não desperdiça. - ele repetiu a última frase ironicamente, uma frase que eu bem conhecia; que eu havia dito. E como eu havia adivinhado, ele tocou na ferida antiga. Meus instintos me fizeram, respirar, respirar, respirar e engolir o choro. Um balde de água fria num coração remendado.
- Mas é verdade, muitas vezes o amor forma á frente dos nossos olhos e em torno da nossa vida, uma cúpula de vidro com efeito insufilm inverso, daquele que você não vê nada, e só quem tá do outro lado sabe tudo que se passa. Ou então um vidro comum, porém embaçado, cheio de gotas do passado que se misturam ao presente, acumulando-se. Enchergamos mais ou menos, mas nem procuramos saber o que há do outro lado. - puxei o ar, meu fôlego havia se esgotado, falei rápido demais. Desabafando e desabando meu escudo: não lembrar do passado.
- Mas e quando alguém diz que te ama e te abandona? - ele franziu o cenho e me olhou com aqueles olhos: quero-arrancar-seu-coração-lentamente.
Revirei os olhos procurando as palavras.
- Existem diversos fatores. Entre eles quando a gente acha que não vai suprir as expectativas da pessoa, que vai ferir e ser ferido... - Minha voz tinha virado quase um grunhido, e eu havia decidido olhar a pizza para não ver os olhos dele me fuzilando.
- Você nem se permitiu. Não pensou em mim. - bingo! figuras de linguagem constantemente usada para iniciar ou terminar assuntos complexos.
O silêncio habitou o local por breves minutos.
- Me arrependi, engoli o medo, descobri que não adianta fugir, paguei meus pecados. Fui absolvida. - Olhei-o desta vez.
- Talvez quem decida isso sou eu. - ele colocou a mão na pizza e sutilmente destruiu o coração, origem e conteúdo constante da discussão.
- Eu estou aqui. - eu tentava achar um modo de me expressar sem parecer nervosa - temos todo tempo. Somos jovens. Podemos reconstruir dois corações, sem analgésicos, anti-depressivos, e auto-flagelação.
- O veneno também funciona como antídoto. - e pela primeira vez naquela noite ele sorriu. Aproximou-se e selou minha testa delicadamente.
Voltamos á enfeitar a pizza, porém desta vez com formas abstratas, para não tocar em nenhuma ferida antiga, das muitas que trazemos no peito e que ninguém vê; nossa bolha revestida de insulfilm.

3 comentários:

  1. Ótimo texto, Lana. Bem pensado a forma de abordar um tema dentro de uma situação. :)

    Adoro a simplicidade deles.
    E bem, achei a vírgula do titulo um pouco desnecessária ou, sei lá... Enfim!

    :*

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  2. Fiz a correção do título após o alerta da Fernada. Grata.

    E obrigado pelo elogio :]

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