domingo, 24 de novembro de 2013

Completude (ir)Remediável

Gabriela enxugou os olhos, relembrou noite passada, sentindo o torpor que nas últimas semanas tornou-se cotidiano. A solidão pode ter um cardápio variado de gostos... Pode ter gosto de chuva, de comida, de sono e de lágrimas. 
Isso de ser sua, e só sua a atormentava um pouco. Não dever nada a ninguém, a não ser a si mesma era um pouco assustador, especialmente para quem tem a essência querer dividir tudo.
Mas, ultimamente, a única coisa que ela queria dividir era os seus pés com os ladrilhos. Caminhar um milhão de passos e conhecer o mundo. E não importa se o mundo fosse a cidade ao lado, a geografia não tem importância quando o calor humano é grande por metro quadrado.
Vestiu-se apressadamente para ir trabalhar. Sua rotina baseava-se em ônibus lotados, um, dois, três copos de café por dia, e muita paciência.
Na saída do trabalho ligou para algumas amigas. Elas lhe chamaram para um samba que aconteceria  mais tarde. Topou. Ultimamente topava tudo - mesmo que não se divertisse sempre.
A música era boa, alta, contagiante. Quando chegou estava tocando "Berimbau":
Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!
O dinheiro de quem
Não dá!
É o trabalho de quem
Não tem!
Risada, suor, cerveja, gente enroscada, abraçada, a lua clamando amor. Dançou! Sozinha, acompanhada, fora de ritmo, conforme a música, e depositou todos os seus medos na energia que o cansaço tirava dela. O peito preenchia de amor. Amor próprio. Felicidade, daquelas que ninguém pode te dar. Sorria com os dentes grandes e brancos a mostra, o vento levava seu cabelo, arrepiava-se. Os olhos não marejavam mais, só brilhavam. No copo a cerveja ia embora,  só ficavam os resíduos de saliva.

Na volta para casa, lembrou de uma das músicas que havia tocado:

Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade, sim.
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas...

Sorriu aliviada. Reorganizou-se interiormente. Entendeu o sentindo de pertencer somente a ela mesma. Não no quesito compromisso. No quesito ser um ser único, que pode além de dividir, somar.
E que por mais que a vida te corte ao meio, haverá sempre um meio de voltar a ser inteir@. O mundo lá fora espera para ser vivido até o último instante.
Ligou para um certo rapaz, que possuía um laço de afeto forte. Disse que estava com  saudade e, não se sentiu mal por isso. Sentiu-se feliz. Sabia que agora só tinha a somar.
Adormeceu aliviada.

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